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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sinta-se Livre

Por Maisa Misiara
Foto: Thiago Calazans

A culpa é um sentimento tão antigo quanto a história da humanidade. Parece que já nascemos com essa “tatuagem” em algum lugar do nosso ser. No Ayurveda, quem conhece um pouco as famosas constituições energéticas, chamadas doshas (vata, pitta e kapha), pode imaginá-la em diversas situações; um vata medroso e inseguro diria: por que tive medo e não fiz o que tinha que fazer? Um pitta, de temperamento “quente”, diria: por que fiquei tão irritado e não me controlei? E um kapha, o mais ressentido dos três, cheio de mágoas: por que não consigo esquecer e me perdoar?

Fato é que, com razão ou não, todos nós sentimos e compartilhamos esse sentimento. O “diferencial divino” entre os seres está em como lidamos com isso, na capacidade de compreender e perdoar, quer seja a nós mesmos ou ao outro. Como vemos e processamos os fatos da nossa vida!

Se olharmos para o presente com peso das marcas do passado, utilizamos um filtro viciado, que turva e obscurece nossa visão, e tudo, então, passa pelo condicionamento dessa lente. Passamos a agir e reagir de uma maneira diferente do que realmente gostaríamos, e a viver uma vida distinta da que sonhamos viver. Deixamos nossos sonhos e o que é pior, adoecemos. Assim iniciam-se uma série de desajustes orgânicos.

Essa desconformidade entre o que vivemos e o que nosso Eu profundo, nossa alma, anseia viver é a origem do adoecimento vata (medos, inseguranças, problemas articulares e neurológicos); do pitta (cólera, indignações, hepatites, doenças inflamatórias, hipertensão e problemas cardiovasculares); e do kapha (apego, depressão, edemas, obesidade, problemas metabólicos e diabetes).

Por sermos parecidos por natureza, mas em essência tão diferentes uns dos outros, estranhamos as ações que não nos fazem sentido. Magoados, brigamos, nos afastamos. Passamos a viver uma vida separada não apenas dos inimigos, dos aborrecimentos, como também dos amigos, do que nos traz alegria e de nossas crenças. Deixamos de ver o mundo de forma sadia.

Se retirarmos os óculos das experiências negativas, nossos olhos limpos não restringirão sua visão apenas à realidade criada pela mente, mas sim, perceberão a verdade da nossa realidade. Olharemos em essência. Seja justo ou não o que tenha nos acontecido, é possível renovar e reescrever uma nova mensagem.

A proposta do Yoga e do Ayurveda é simples e transformadora: somos recriados a todo o momento, corpo e mente. Escolher com sabedoria o que nos formará está em nossas mãos. Desintoxicá-los e nutri-los com alimentos e hábitos adequados à nossa constituição; viver com o foco em cada ato singular e com a atenção plena no que está acontecendo são os ensinamentos dessa milenar arte de curar.

A escolha livre de paradigmas do passado reescreve um novo caminho; como diz o texto bíblico, seguir sem olhar para trás! Isso significa perdoar. Nossos registros de sofrimento podem ser mudados.
As práticas de meditação e pranayamas ajudam a ampliar e renovar a nossa percepção e consciência. Respirar é relaxar! Respirar é trazer para nosso sangue um novo fluxo de oxigênio, um novo fluxo de pensamentos e de vitalidade. Assim como o ar entra e sai, o que não é mais necessário pode sair e o novo entrar.

Perdoar não apenas deixa-nos livres de doenças e das amarras emocionais do passado, mas traz à vida o perfume e o frescor do tempo presente.


Maisa Misiara – Médica Homeopata, Ayurveda. Docente do Instituto de Cultura e Escola de Homeopatia, responsável pela Clínica Cítara Saúde.

Leia mais sobre os doshas


Autocrueldade

Por Flávia Lippi

De todas as violências que sofremos, as que cometemos com mais frequência são as que cometemos contra nós mesmos.

Nessa violência, nesta crueldade, não se derrama sangue, mas se derrama dor e com isso se constroem paredes, e atitudes limitantes que passam a nos sufocar por dentro.

Atitudes limitantes são martelos incessantes em nossa alma e sem dúvida a mais dissimulada de todas as agressões. Elas vêm enfeitadas de falsas virtudes, aplausos de pessoas e que mesmo assim continuam internamente delimitando e esmagando brutalmente nossa alma.

Algumas pessoas buscam sempre a admiração e aceitação dos outros, numa tentativa incessante de calar as atitudes limitantes que calam também suas almas. Buscam constantes elogios, colecionam reverências e títulos inúteis, sorrisos marcados e ainda assim não sabem o preço que pagam por isso. Vivem distantes de si mesmas.

A autocrueldade só pode ser combatida, com amor a si mesmo e a declaração interna de que é necessário fazer diferente do que sempre fez, para que seja respeitado pelo que é e não pelo espelho que se carrega.

A alma pode ser sim o reflexo mais sincero do que somos.

Seja. Simplesmente, seja.


Flávia Lippi é Master Coach pelo Behavioral Coaching Institute – EUA, Trainer pelo Instituto Integral de Coaching y Desarrollo Personal – Espanha, Busines Coach e Personal & Professional Coach pelo International Coaching Council – ICC. Membro emérito da SBC. Terapeuta Ayurveda pela Fundação Sri Vájera (Escola Yoga Brahma Vidya, ligada à Sudda Dharma Mandalam International, Índia). Trainer e Speaker Internacional. Docente em instituições nacionais e internacionais. Diretora do Instituto Idemap – Brasil – México e Instituto IDHL – Brasil – Londres. Autora dos livros, Coaching in a Box e Guia de Beleza Natural pela Matrix Editora do Brasil. Autora convidada do livro Ferramentas de Coaching, publicado em Portugal e com previsão de publicação no Brasil.
www.idhl.com.br / www.institutoidemap.com.br
Tel.: 11 96389637
flavialippi@flavialippi.com.br


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Yoga na Educação


Por Madu Cabral

A doutora em Letras Americanas, Michelline Flack, começou seu caminho no Yoga quando descobriu que seu autor predileto, Henry David Thoreau, passou dois anos isolado em uma floresta para descobrir o significado da vida e levou apenas dois livros: Homero e a Bhagavad Gita. O caminho indicado por Thoreau a levou a uma das mais importantes escolas de Yoga do mundo, a Bihar School na Índia, onde estudou com Swami Satyananda Saraswati.

Professora de inglês na época, Michelline começou a experimentar algumas das técnicas do Yoga (alongamentos, respiração e relaxamento) em seus alunos durante as aulas. Apesar das dificuldades pela falta de divulgação, conhecimento e livros sobre Yoga (falamos de 1973), a professora viu o benefício que haveria para os alunos e começou a desenvolver um método para ensinar a milenar filosofia da Índia para seus pequenos estudantes. Todos gostaram: pais, alunos e escolas, hoje Michelline é fundadora do RYE – Research of Yoga in Education, uma instituição presente em muitos lugares do mundo (inclusive no Brasil) que incentiva, estuda e pratica o Yoga para as crianças nas salas de aula.

Como foi o início de seu trabalho com as crianças e o Yoga?
Percebi o benefício que essas técnicas poderiam oferecer ao aprendizado infantil e o interessante é que as crianças gostavam muito. No começo, os pais desconfiaram um pouco de uma professora de inglês ensinando "ginástica" na sala, mas expliquei que isso as ajudaria a aprender melhor. Dava pequenos exercícios de Yoga em inglês e meus alunos, além de se tornarem muito bons no vocabulário do corpo, passaram a entender que o corpo é nossa verdadeira casa, não nosso quarto ou uma cozinha, e passaram a cuidar dele melhor.

E como isso se organizou na França?
Passei a ser conhecida com esse trabalho, no começo recebi muitos jornalistas para falar sobre isso. Esse movimento cresceu, comecei a ser muito procurada por professores e hoje, apesar de não ser reconhecido oficialmente, as escolas vêm com bons olhos um professor formado pelo RYE, sabem a qualidade e os benefícios dos nossos programas.
O Yoga não deve ser obrigatório, é contra tudo que os textos antigos nos ensinam. Ao ensinar Yoga nas escolas apresentamos o método, o que não significa que todos queiram praticar. Por isso começamos a ensinar aos professores, para que as técnicas possam acompanhar o dia a dia das escolas. O importante é observarmos que se o professor só aprender a técnica e não praticar Yoga regularmente a técnica não funciona em sala de aula, depois de um tempo deixa de ser interessante.

E quais os benefícios?
A primeira coisa que percebemos foi que ao apresentarmos o Yoga imediatamente há uma mudança na relação entre os alunos e os professores, é PAZ, a atmosfera da sala muda. Se o professor propõe um jogo em que os alunos entrem o mais quieto possível na sala sem fazer barulho, a atividade começa mais tranquila e apresentamos uma novidade às crianças: o silêncio!
Tanto para crianças quanto para adultos o Yoga aumenta a atenção no momento presente, traz equilíbrio, e melhora a imunidade, faz bem para o corpo. Queremos que as crianças sejam pessoas autônomas e bem equilibradas, que tomem responsabilidade por suas vidas e que mantenham a mente crítica.

Como as crianças recebem o Yoga?
Eles são ótimos embaixadores do Yoga! Ensinam o que aprendem uns aos outros. As crianças fazem as coisas sem perder muito tempo pensando como fazer. O Yoga para as crianças não pertence a nós, ensinamos e eles fazem o resto.


Micheline Flak (Swami Yogabhakti) estudou Yoga com seu mestre Swami Satyananda, referência mundial em Yoga. Doutora em Letras Americanas pela Sorbonne, começou a introduzir técnicas de Yoga em suas aulas em 1973. Foi professora de Ciências da Educação no Institut Supérieur de Pédagogie Paris XII, de 1985 a 1994. Diplomada em Yoga pela Fédération Française de Hatha Yoga e formada pela Bihar School of Yoga, Índia, onde estudou com Sw. Satyananda Saraswati, de quem é discípula direta e recebeu o título de Swami. Fundou e preside a RYE – Recherche sur lê Yoga dans l’Education (Pesquisa de Yoga Aplicado à Educação) – hoje presente em 11 países.


Consciente coletivo - Episódio 2/10



Fonte: Akatu


Consciente coletivo - Episódio 1/10

Em 10 episódios, a série Consciente Coletivo faz reflexões, de forma simples e divertida, sobre os problemas gerados pelo ritmo de produção e consumo de hoje. Entre os assuntos estão sustentabilidade, mudanças climáticas, consumo de água e energia, estilo de vida, entre outros, que permeiam o universo da consciência ambiental. O projeto é uma parceria entre o Instituto Akatu, Canal Futura e a HP do Brasil.



Fonte: Akatu


Administrando o tempo em paz

Por Camila Reitz

O tempo está cada vez mais escasso para todos nós. O mundo, com tantas novidades tecnológicas, por um lado nos ajuda a fazer tudo de forma mais rápida e desperdiçando menos tempo. Por outro lado, faz com que tenhamos cada vez mais coisas para fazer, além é claro, da obrigação de fazermos tudo com mais eficiência e rapidez.

Antigamente escrevíamos cartas para amigos no exterior ou em alguma cidade distante. Lembro que era prazeroso escrever em papel, fazer um desenho e enviar uma foto junto. Demorava um tempão para a resposta chegar, demorava tanto que nem ficávamos preocupados esperando a tal resposta, e era uma alegria ver o carteiro chegando. Hoje, carteiros só trazem contas para pagar. E o meio de comunicação é o computador. Escrevemos mais e-mail de trabalho do que qualquer outra coisa. Uma amiga disse um dia: “é ótimo quando você responde o e-mail, pois você passa o problema para frente, e ele só volta quando a resposta voltar”.

Mas mantenha a calma, pois há de existir uma forma de resolver essa situação de falta de tempo. A principal forma é termos a consciência de que o tempo tem duas características que não mudam nunca: o tempo não para, e nunca volta atrás. Temos que aceitar e saber lidar com o que já passou e também administrar a falta de tempo em paz.

No momento estou numa situação de falta de tempo terrível. Parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo, e realmente está! O prazo para entrega desse texto está esgotado, e com calma tenho que escrever. Então as dicas que escrevo aqui são as que eu mesma estou utilizando. A primeira coisa a fazer é escrever todas as tarefas num papel. A grande vantagem de fazer uma lista é retirar as tarefas da cabeça para criar espaço e leveza para solucioná-las. Tome um tempo para refletir o que é realmente imprescindível fazer agora e o que pode ser feito depois, priorizando as tarefas. Parar para relaxar e tomar um tempo para si tem uma extrema importância durante o processo de executar tarefas. Dessa forma a mente fica mais calma e quanto mais calma, mais alerta e capaz para solucionar problemas.

Muitas vezes menos é mais. Aprendi isso com um aluno da formação para professores. Pedi para todos escrevessem os compromissos que iriam assumir durante o curso, e ele falou: “vou me comprometer a fazer ao menos o mínimo”. Pensei, como assim, vai se comprometer a fazer o mínimo? E ele complementou: “mas vou tentar ao máximo, fazer o máximo”. Então, observe a sua lista de tarefas e comprometa-se a fazer pelo menos o mínimo que é necessário ser feito, e se puder, faça o máximo, o melhor que puder.

Sugeri para mim mesma e sugiro para você fazer uma resolução interior. No Yoga chamamos essa resolução de samkalpa, existe uma forma específica de fazer essa resolução. Deve ser uma frase curta, positiva e conjugada no presente, pois o subconsciente só capta informações no presente. Para manter a paz sugiro algo como: “faço uma coisa de cada vez” ou “resolvo tudo em paz”. Repita seu samkalpa pelo menos três vezes ao dia, ou sempre que estiver ansioso para resolver algo. Respire fundo, feche os olhos e visualize-se em paz resolvendo qualquer situação que possa aparecer. Com certeza isso irá ajudá-lo.

Existem teorias que dizem que os dias não têm mais 24 horas. Chego a pensar que isso realmente pode ser verdade. Afinal não dá mais tempo de fazer tudo o que temos que fazer, quem diria fazer tudo o que queremos fazer. Mas será que a solução não seria querer menos?

Bem, talvez essa seja uma das soluções, afinal muitas vezes menos é mais. Mas no momento não tenho tempo para refletir sobre isso, vou colocar essa reflexão na minha lista de tarefas, assim o assunto não vai ficar pendurado na minha cabeça, ocupando espaço que deveria estar preenchido de paz.


Camila Reitz pratica Yoga há 16 anos, estudou no Brasil, Índia, Estados Unidos e Austrália, criou a marca Devi e ministra curso de formação para professores de Yoga. www.devi.com.br


Navaratri – as Nove Noites de Devi

Dentro do hinduísmo, o Divino é visto como o Todo, que inclui todas as formas, todo o Universo e todos os seres. Uma vez que tudo inclui, o Todo pode ser visto por detrás de qualquer objeto, situação ou criatura, e com isso podemos viver nossas vidas sem perder de vista a presença deste Divino.

Algumas formas são consideradas especiais, por evocarem mais facilmente a apreciação para com este Todo, além de transmitir o conhecimento da tradição por meio de símbolos. Tais formas são as Divindades, que representam aspectos do Todo como o Conhecimento, a Prosperidade, dentre outros. As divindades masculinas são chamadas Devas, e as femininas são chamadas Devis.

As Devis exaltam o Todo na forma de Shakti, o poder que existe inerente ao Universo, e que permite sua manifestação, manutenção e dissolução. Dentro do simbolismo hindu, Shakti é sempre associada ao feminino, sendo a beleza, a multiplicidade das cores e todas as capacidades.

Esta Shakti é vista como tendo três aspectos principais: o poder de conhecer, o poder de desejar e o poder de agir. Cada um deles é visto como uma Devi: Saraswati, Lakshmi e Durga, respectivamente, sendo as consortes de Brahmaa, o criador, Vishnu, o mantenedor, e Shiva, o destruidor do Universo.

No festival de Navaratri, Shakti é homenageada ao longo de nove noites (“nava-ratri”). Nele, uma das mais importantes histórias associadas a Shakti é lembrada, contando o surgimento de Durga. É dito que um terrível Asura (demônio) chamado Mahisha fez muitas disciplinas, e por conta disto obteve a bênção de Brahmaa, o criador. Mahisha pediu pela imortalidade. Contudo, Brahmaa negou seu desejo, já que tudo o que nasce necessariamente morre. Assim, Mahisha pediu para que só pudesse ser derrotado por uma mulher. Como ele considerava impossível ser vencido em batalha por uma mulher, para todos os efeitos ele estaria imortal.

Com esta grande bênção, Mahisha foi capaz de derrotar até mesmo os Devas, dominando todo o Universo e levando o caos a toda parte. Sem saber o que fazer, os Devas pediram auxílio a Brahmaa, Vishnu e Shiva. Ao ouvirem as atrocidades de Mahisha, todos ficaram muito raivosos, e da testa de cada um deles emanou uma luz, suas Shaktis, que se uniram em um único ponto no espaço, manifestando Devi em uma única forma com diversos braços, cada um portando a arma de um Deva, ela mesma montada em um leão.

Após ouvir o que os Devas tinham a dizer, o leão deu um imenso rugido, e Durga partiu para o encontro com Mahisha. Centenas de exércitos de asuras, após terem ouvido o rugido do leão de Durga, correram para ver qual a origem daquele estrondo, prontos para guerrear. Ao vê-los do alto de uma montanha, Durga deu uma gargalhada, e partiu contra os asuras. Milhares caíram mortos com o som de seu sino, outros milhares com a lâmina de sua espada, e outros ainda devorados por seu leão.

Tendo ouvido sobre o massacre que Durga fazia em seu exército, Mahisha enviou cada vez mais tropas, com seus melhores generais, todos derrotados pela Devi. Finalmente, o próprio Mahisha foi a seu encontro. Uma terrível batalha seguiu-se. O asura transformou-se diversas vezes em vários animais para atacar Durga, que rapidamente os decaptava. Contudo, cada vez que o asura perdia a cabeça, uma nova forma se manifestava da anterior, adiando o fim da batalha.

Finalmente, Mahisha assumiu a forma de um búfalo, indo de encontro a Durga, que fincou sua lança no coração do animal. Desta vez, contudo, Mahisha saiu de dentro do búfalo em sua forma original, e Durga pulou de seu leão, caindo sobre o asura e pisando em sua garganta, evitando que ele saísse por completo com sua nova forma. Enquanto Mahisha se debatia sob os pés da Devi, ela cortou sua cabeça, de forma definitiva, derrotando-o enfim.

Vendo tal derrota, os asuras restantes fugiram, escondendo-se nas profundezas da terra e do oceano. Todos os Devas cantaram em homenagem a Devi, lançando flores sobre ela, comemorando o fim de Mahisha e o restabelecimento da ordem no Universo.

Tal história representa a vitória do conhecimento sobre a ignorância, representada por Mahisa. Devi representa todas as tendências da mente que conduzem ao autoconhecimento, objetivo último dentro da tradição védica. A batalha entre Durga e Mahisha, portanto, representa o conflito que há nas mentes de todos, entre Dharma e Adharma, clareza e confusão, conhecimento e ignorância. A vitória, porém, será sempre do conhecimento, para aqueles comprometidos com uma vida de disciplina e valores, que é o estilo de vida de Yoga.

No festival de Navaratri os hindus celebram esta história, com todo o seu significado, pedindo à Devi que os abençoe com tudo o necessário para a aquisição do autoconhecimento. A história da vitória sobre Mahisha é contada, mantras são entoados, Pujas são celebradas e bhajans cantados. Nos três primeiros dias, Devi é lembrada como a própria Durga, a capacidade de ação, consorte de Shiva, para que todas as tendências negativas da mente sejam eliminadas. Nos próximos três dias, Devi é lembrada na forma de Lakshmi, toda a prosperidade, consorte de Vishnu, para que a mente seja enriquecida com clareza e discriminação, tornando-se terreno fértil para a aquisição do conhecimento. Nos últimos três dias, Devi é lembrada na forma de Saraswati, que é todo o conhecimento, esposa de Brahmaa, para que nos abençoe com o autoconhecimento.

Finalmente, após as nove noites, no décimo dia é feita uma grande cerimônia, consagrando a aquisição do autoconhecimento. Este dia é chamado Vijaya Dashami, o dia da vitória, quando Devi derrotou Mahisha, a ignorância, representando simbolicamente a aquisição do conhecimento à respeito deste que é o Eu. É dito que este é um ótimo dia para iniciar qualquer empreendimento, principalmente disciplinas para Devi, em qualquer uma de suas formas, e para refletir especialmente sobre o ensinamento que a tradição védica transmite: o de que já somos toda a plenitude que sempre buscamos, bastando apenas ter entendimento sobre isto; nós e Devi somos, de fato, o mesmo. Este é o maior ensinamento de Navaratri.

Patrick van Lammeren é professor de simbolismo védico e estudante de Vedanta desde 2004, e faz parte da equipe do Centro de Estudos Vidya Mandir, dirigido pela professora Gloria Arieira.

Contato: sheratan@superig.com.br
Vidya Mandir: www.vidyamandir.org.br